Professor das disciplinas de Economia Cacaueira, Mercado e Comercialização e Fundamentos do agronegócio da Universidade Estadual de Santa Cruz/BA
Publicado em 01/03/2016
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Por Bruno Simões de Oliveira dos Santos
"Possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal da Bahia, especialização em desenvolvimento rural integrado na FGV, mestrado em Administração Rural pela Universidade Federal de Lavras, doutorado e pós-doutorado em Ciências da Administração pela Universidade de Montpellier I, França (2002). Sua maior experiência profissional é com a extensão rural, onde foi extensionista, chefe de Escritório, supervisor regional, chefe de setor de transferência de tecnologia, assessor da diretoria. Atualmente trabalha com pesquisa e ensino: é professor das disciplinas de Economia Cacaueira, Mercado e Comercialização e Fundamentos do agronegócio da Universidade Estadual de Santa Cruz/BA."
1. Qual o potencial do mercado para o chocolate fino brasileiro?
O mercado de chocolate no Brasil apresenta um dos maiores crescimento do mundo e o segmento de chocolate fino (Premium ou Gourmet) é o que mais cresce no Brasil. Segundo dados da Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, amendoins, Balas e derivados (Abicab), o mercado de chocolate fino vem crescendo até três vezes mais que o somatório dos outros segmentos.
A produção e consumo de chocolate fino, à dez anos atrás, não aparecia nas estatísticas nacionais. Atualmente participação do chocolate fino em relação ao total produzido no Brasil é algo em torno de 2%. Portanto o potencial deste mercado é grande, pois ele vem crescendo a taxa elevada, até 20% ao ano, e ainda há muito espaço para a expansão do setor no Brasil.
Uma demonstração prática deste potencial de mercado é o interesse atual das maiores indústrias de chocolates do mundo, que há cinco anos atrás não se interessava por esse mercado.
A Lindt, por exemplo, lançou no Brasil a sua linha “ excellence” com até 99% de cacau. Nestlé lançou a linha Gold, a Nero e a kit kat dark, 85% cacau. A Hershey’s lançou a linha “cacao reseve” com até 70% de cacau. A Kraft (lacta) lançou a “experiences noir” com até 85% cacau.
Várias empresas nacionais como a Cacau show, Kopenhagen seguiram a mesma tendência. A Harald, fabricante especializada no segmento de coberturas, criou duas linhas de chocolates finos: uma para empresas de alimentos, outra para o consumidor final, demonstrando confiar no potencial de mercado de chocolate fino.
Aqui na região cacaueira da Bahia, mais de 20 pequenas indústrias acreditaram neste potencial de mercado e se lançaram na produção e comercialização de chocolates finos.
Seguindo o que já aconteceu com o vinho e com o café, o consumidor brasileiro começa agora a querer conhecer chocolates de melhor qualidade. A tendência de sofisticação dos chocolates não é só um modismo. A migração do consumidor para os chocolates finos é um caminho inevitável e sem volta.
2. O que poderia ser feito para impulsionar o mercado do chocolate fino brasileiro?
Pelo menos dois fatores podem impulsionar o mercado do chocolate fino no Brasil: Publicidade e Pesquisa/Rastreabilidade
Publicidade: Existem pesquisas que concluíram que as grandes indústrias de chocolates gastam mais com publicidade que com a principal matéria prima, o cacau. Contudo, publicidades no rádio e televisão, aqui no Brasil, indicando os benefícios do chocolate fino ou mesmo esclarecendo o que o distingue dos outros tipos de chocolate, é praticamente inexistente.
Também está demonstrado através de pesquisa que 30% da população, aqui no Brasil, não sabe e nem conhece chocolate fino, 36% tem uma ideia incompleta ou distorcida deste assunto e só 16% sabem efetivamente o que é chocolate fino ou Premium ou gourmet.
Nos mercados maduros o chocolate fino é conhecido pelos seus benefícios à saúde. No Reino Unido, por exemplo, ele é considerado mais saudável do que as variantes ao leite e branca por quase seis em cada dez consumidores (57%). Entretanto, isso não acontece no Brasil, onde apenas 16% dos consumidores de chocolate veem o chocolate fino como sendo benéfico à saúde.
Assim é provável que o impulso neste mercado dependa de uma maior comunicação do posicionamento saudável do chocolate fino, em comparação aos outros tipos de chocolate com porcentagens menores de cacau.
É essencial que as empresas comuniquem a presença de antioxidantes (e seus benefícios associados à saúde), assim como o teor mais baixo de ingredientes menos saudáveis, como açúcar, em suas receitas.
A difusão do posicionando do chocolate fino como uma opção mais saudável, poderia atrair os consumidores preocupados com a saúde, promovendo impacto positivo no mercado.
Pesquisa: Atualmente o mercado mundial de chocolate se caracteriza por duas principais tendências: Chocolate com alto teor de cacau e Chocolate certificado.
O chocolate com alto teor de cacau requer cacau fino, com qualidades excepcionais, para sua elaboração.
Na Europa e nos Estados Unidos, os chocolates finos se tornaram referência de produtos de qualidade por dois motivos. A primeira é busca incessante por amêndoas com identificação de origem. Os chocolateiros transformaram o chocolate em uma iguaria vendida em ambientes de luxo, com certas especificidades. A principal foi passar a analisar o cacau de forma idêntica à feita com os vinhos, a partir de seu “terroir”. A palavra é de origem francesa e vem sendo traduzida livremente como “uma sensação de um lugar”. Mas verdadeiramente “terroir” não tem tradução, pois é a integração simultânea de três fatores: a variedade ou raça; a habilidade de preparar o produto ( know- how); e os fatores ambientais ( clima, solo, pluviosidade.....). Da combinação desses três fatores saem produtos únicos em aroma e sabores, “com uma sensação de uma lugar especial”.
A pesquisa internacional já concluiu que, no caso do chocolate fino, na formação desses aromas e sabores únicos, a variedade de cacau é responsável por 40%; a habilidades no preparo do produto (ponto de maturação/colheita, fermentação e secagem) corresponde a 30%; e o meio ambiente a 10%. Os 20% restante é dado pela industrialização (torrefação, refinação e conchagem).
O Brasil evoluiu muito com relação a habilidade na preparação do produto se tornando um referencia mundial neste particular. Com relação ao meio ambiente, o cacau no Brasil é produzido em duas regiões nobres, a Floresta amazônica e a mata atlântica. Com relação às variedades, o fator que mais determina aromas e sabores especiais, as pesquisas ainda são tímidas, embora o Brasil tenha um dos maiores campos de germoplasma do mundo, com as espécies de cacau mais consagradas para o preparo de chocolate fino. Falta pesquisar essas variedades com essa finalidade!
Só para citar um exemplo, o Equador, que é o principal produtor de cacau fino do mundo, e possui uma das variedades de cacau com um dos aromas mais valorizados do mercado de chocolates finos, a variedade “nacional do Equador”, com o sabor “arriba” e aromas florais, desenvolve um intenso programa de pesquisa buscando novas variedades. O INIAP , instituto equatoriano de pesquisa, na sua Estacion Experimental Tropical, desenvolveu duas variedades de cacau, EET 544 e a EET 558 com alta produtividade, resistência a doenças e propriedades organolépticas dos cacaus finos de aroma. Atualmente uma só fazenda já plantou 500 hectares destas variedades, para produção de chocolates finos.
3. O que prejudica o desenvolvimento do mercado do chocolate fino brasileiro?
Os dois principais fatores que prejudicam o desenvolvimento do mercado de chocolate fino são: o preço e os mitos.
MITOS: O chocolate é um alimento adorado por quase todo mundo. Porém, ele convive com uma série de mitos e dúvidas, que foram amplamente divulgados no seio da população e que ainda se constitui um dos fatores limitativos para o impulso do seu mercado no Brasil.
Estes mitos foram criados com relação ao chocolate ao leite, com baixo teor de cacau, contudo prevalece para o chocolate em geral, inclusive o chocolate fino. Eis alguns exemplos destes mitos:
*O chocolate faz mal para a pele e causa espinhas
Não há nenhuma comprovação científica sobre essa relação. Pelo contrario, pesquisas indicam que pequenas porções por dia melhoram a estrutura da pele e o fluxo sanguíneo. principalmente se teor de cacau no chocolate for superior a 50%.
a) Comer chocolate diariamente acelera o envelhecimento
O que ocorre é exatamente o contrário. O cacau possui flavonóides, potentes antioxidantes que junto com as epicatequinas diminuem o estresse oxidativo, radicais livres produzidos em grandes quantidades no organismo humano, deixando a pele mais saudável e retardando seu envelhecimento.
b) O chocolate é excitante e faz mal ao coração
Os nutrólogos e nutricionistas afirmam que o chocolate com mais de 50% de cacau ajuda na melhora da função endotelial, diminui a adesão plaquetária e, consequentemente, reduz da pressão arterial.
c) O chocolate engorda
As pesquisas nutricionais indicam que o chocolate com mais de 50% de cacau é rico em gorduras mono insaturadas que ajudam no emagrecimento e na vontade de consumir doces refinados. Mas devemos destacar a importância de serem adquiridos hábitos alimentares saudáveis, pois não será apenas o chocolate fino que fará milagres. Se consumirmos chocolate que tenha baixo teor de cacau estaremos ingerindo mais açúcar do que cacau, ou seja, ao invés de estarmos beneficiando o nosso organismo estaremos prejudicando.
PREÇOS: Quando comparamos o preço do chocolate em geral com o chocolate fino, encontramos uma grande diferença, que assusta o consumidor menos avisado e prejudica o desenvolvimento do mercado de chocolate fino. Essa relação de preços é de 1 para 3 e às vezes de 1 para 5.
Encontra-se nos mercados chocolate ao leite, por exemplo, a R$ 5,00 por 100g, contra R$ 15,00 por 100 g do chocolate fino. Em algumas marcas essa relação é maior e pode chegar a R$ 3,00 do chocolate em geral para R$ 20,00 no chocolate fino.
Por que essa diferença:
A primeira e principal explicação está no conceito de chocolate e nos ingredientes que compõe os dois tipos de chocolates.
A definição oficial de chocolate da Anvisa é a seguinte:
"Chocolate: é o produto obtido a partir da mistura de derivados de cacau (massa ou pasta ou liquor de cacau, cacau em pó e ou manteiga de cacau, com outros ingredientes, contendo, no mínimo, 25 % (g/100 g) de sólidos totais de cacau. O produto pode apresentar recheio, cobertura, formato e consistência variados".
A Abicab (Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados) emitiu uma nota, dizendo que os produtos feitos com menos de 25% de cacau são considerados doces com "sabor de chocolate".
Assim, em termos oficiais, para ser considerado chocolate, produto precisa ter ao mínimo 25% de derivados naturais do cacau.
Acontece que a Anvisa não tem condições de fiscalizar essa informação e segundo o presidente da Associação de Turismo de Ilhéus (BA), organizador do salão internacional do chocolate de Ilhéus e fabricante de chocolate fino, 1 em cada 3 chocolates vendidos não é chocolate real e não poderia ter esse nome de chocolate porque não é feito com o percentual mínimo de cacau exigido pela legislação.
Uma pesquisa divulgada pelo IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) conclui que falta informação nos rótulos dos chocolates brasileiros. Entre 11 marcas de chocolates ao leite pesquisadas, apenas uma informou o percentual de cacau na embalagem. As outras dez não fizeram nenhuma menção à quantidade.
De acordo com o IDEC, ainda não existe nenhuma lei que obrigue as empresas a colocarem esse dado na embalagem, mas, para o instituto, seria razoável que essa iniciativa partisse dos próprios fabricantes.
Para o IDEC, a legislação atual tem outra falha, que é não limitar a adição de "gorduras equivalentes" (gorduras com propriedades físicas e químicas muito parecidas com as da manteiga de cacau, mas que não são de cacau).
Assim pode-se afirmar que o mercado de chocolate fino fica prejudicado no seu crescimento, pois tem maiores quantidade de cacau , essa matéria prima é de melhor qualidade ( cacau fino) e concorre com produtos substitutos que não tem a mesma qualidade e são vendidos como chocolates a preços bem menores.
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