Entrevista

Entrevista com Dilson Araújo:

D

Dilson Araújo

Diretor

Publicado em 18/02/2026
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Por Bruno Simões de Oliveira dos Santos

"Diretor do filme O nó - Ato Humano Deliberado"

1) CICacau: A que o senhor atribui a crise da cacauicultura baiana? Dilson Araújo: Nas duas primeiras grandes crises, 1929 e 1956, a lavoura cacaueira baiana respondeu bem às políticas adotadas, quais sejam a criação do Instituto de Cacau da Bahia e a criação da CEPLAC, ações que imprimiram nos períodos seguintes um aumento de produção e um desenvolvimento regional interessante. Não obstante, a terceira grande crise trouxe particularidades que devem ser levadas em consideração. Iniciada no final da década de 1980 decorreu de fatores climáticos e mercadológicos, portanto, inerentes à prática da agricultura. Entretanto, a crise foi potencializada a partir de 1989 com a introdução criminosa da vassoura-de-bruxa e, a partir de 1995, foi consolidada definitivamente em razão da desastrosa e irresponsável intervenção do Estado brasileiro através do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira Baiana, que nada recuperou e ainda tornou crônico o endividamento dos produtores, que foram induzidos a contrair empréstimos para financiar o combate a uma doença exótica, cuja obrigação legal era do Poder Público. A combinação desses elementos trouxeram consequências catastróficas. Assim, podemos dizer que a manutenção da crise da lavoura cacaueira baiana é alimentada por quatro fatores principais: o primeiro refere-se à queda de produção decorrente da introdução criminosa da vassoura-de-bruxa; o segundo, o fracasso do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira Baiana; o terceiro, ao endividamento e a descapitalização do produtor e, o quarto, a histórica e cultural desarticulação dos cacauicultores baianos. 2) CICacau: Como as instituições de ensino e pesquisa da região podem contribuir para impulsionar a cacauicultura? Dilson Araújo: Parece que foi Euclides Neto quem disse que o maior avanço tecnológico do cacau era o biscó. Diante disso, podemos compreender a pobreza tecnológica da cacauicultura baiana. Cultivamos o cacau da mesma forma há mais de duzentos anos e, nesse período, não surgiram novidades significativas que pudessem dinamizar o processo de produção, baratear seus custos e melhorar a qualidade. Assim, como são as instituições de ensino e pesquisa que produzem conhecimento e tecnologia, a ausência de uma relação mais íntima da ciência com a região cacaueira da Bahia, no caso, a cacauicultura, resultou no cenário atual. Exemplo dessa falta de intimidade é que há poucos anos a UESC sediou VII Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (SOBER), onde sequer a economia cacaueira foi pautada. Da mesma forma, o cacau não tem o destaque que merece no curso de Agronomia. Atualmente vemos uma luz no fim do túnel, pois a Universidade Federal, recentemente instalada, já sinaliza, com ações práticas, para uma relação de intimidade e pertencimento com a região. Respondendo a questão, eu diria que o desenvolvimento da cacauicultura e, também, de outras vocações agrícolas e industriais da região, depende do estreitamento da relação da região com as Instituições de ensino e pesquisa, uma vez que podem criar os ambientes adequados para a produção de conhecimento e tecnologia, que são os principais vetores do progresso. 3) CICacau: Com a crise da cacauicultura, como desenvolver a região Sul da Bahia? Dilson Araújo: Há outros setores que podem contribuir com o desenvolvimento da região? São muitas as frentes, que, combinadas, já compõem o cenário inicial para o desenvolvimento regional. Mas a caminhada já começou! Vemos que um novo modelo está transformando o produtor num “profissional do cacau” e já apresenta resultados que podem ser vistos na produção de amêndoas de melhor qualidade e, até mesmo, na produção de chocolate. Por outro lado, a diversificação vem demonstrando que as lições da crise foram assimiladas, pois estão sendo construídas alternativas para compensar as fragilidades da monocultura. Porém, esse processo acontece a passos lentos e as principais causas dessa morosidade são o endividamento e a descapitalização dos produtores, fatores que decorrem principalmente dos financiamentos contraídos para executar o Programa de Recuperação. Acredito que a retomada do desenvolvimento regional depende, obrigatoriamente, da associação de fatores como a resolução definitiva do endividamento; a abertura de crédito; o fortalecimento das culturas associadas.

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