Entrevista
Mudança Institucional e Reconversão Produtiva no Sul da Bahia
E
Elson Cedro Mira
Doutor em Economista (UESC)
Publicado em 02/05/2015
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Por Bruno Simões de Oliveira dos Santos
"O prof. Elson, do departamento de ciência econômicas da UESC, é doutor em Economista (UESC), Mestre em Cultura e Turismo (UESC/UFBA) e Doutor em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ). Atualmente, é Pró-Reitor de Administração e Finanças da instituição."
1) CICacau: A economia do sul da Bahia ainda está em crise?
Não! Meu livro apresenta dados que demonstram como a economia no sul da Bahia vem tendo crescimento real. Tanto no seu conjunto (soma do produto agregado de seus municípios) como cada município isoladamente. Isso é resultado do processo de reconversão produtiva do seu produto agregado que se desloca do setor primário (agropecuária e extrativismo vegetal), onde predomina a produção de cacau, para o setor terciário (comércio e serviços). O livro comprova este cemário a partir de várias informações. São apresentados e analisados dados de renda, composição setorial da economia, emprego, desenvolvimento humano... que comprovam tanto o crescimento econômico como a reconversão produtiva.
2) CICacau: O cacau ainda é a base da economia sul baiana?
Também não. Inclusive no livro eu analiso dados de toda a Mesorregião Sul Baiano, que é a área geográfica considerada pelo IBGE constituída pelas microrregiões Valença, Ilhéus-Itabuna e Porto Seguro. Que é a chamada Região Cacaueira da Bahia (o baixo sul, o sul e o extremo sul baiano). Curiosamente, das três, a microrregião Ilhéus-Itabuna é aquela onde há um maior peso dos serviços na economia e a menor relevância do setor primário (não só o cacau). Vale dizer que das três microrregiões é nesta de Ilhéus-Itabuna onde o cacau ainda predomina no setor primário. Por outro lado é onde o cacau tem a menor produtividade! É o que explica a pequena expressão do setor primário no produto agregado da microrregião Ilhéus-Itabuna. Monocultura de um produto que tem se demonstrado inviável economicamente. Sempre analisando a microrregião Ilhéus-Itabuna, o livro também explica e comprova que o setor terciário não é induzido pelo setor primário, como ainda pensam muitas pessoas. O setor terciário é o setor dinâmico da economia regional. Neste sentido o que vai justificar o soerguimento econômico regional é emergência e consolidação de vetores econômicos do setor terciário. E o livro identifica tais vetores. Ou seja, a crise continua para o produto cacau mas foi superada em termos de produto agregado. O descolamento da economia regional do cacau permitiu o soerguimento.
3) CICacau: As instituições regionais têm contribuído para o desempenho econômico do sul da Bahia?
Não. Enquanto a base econômica regional é terciária, as instituições continuam cacaueiras. O que eu quero dizer com isso: o cacau domina, tem prioridade, na pauta das instituições regionais. Enquanto isso, atividades do setor terciário são relegadas, em muitos casos têm sua importância desconhecida pelas instituições. O livro prova isso! O que é surpreendente porque os dados que eu apresento e analiso no livro são dados oficiais, amplamente disponíveis, acessíveis por qualquer um. E isso se explica pela influência da ideologia cacaueira nas instituições. O cacau moldou a região no passado: sua economia; sociedade; instituições. De modo que sua ideologia continua arraigada na instituições, definindo a forma com as pessoas veem o mundo ao seu redor. E esta forma é diferente do que, de fato, é o mundo ao seu redor. Claro, estou falando sobre a economia. Uso uma metáfora no livro para falar disso: é como que as pessoas criassem “muros” entre si e a realidade. E esta divergência entre a visão das pessoas e a realidade (de fato) gera o que chamamos de inconformidade institucional: economia terciária e instituições cacaueiras. Isso se aplica aos diversos tipos de instituições: políticas, sociais, educacionais... então é necessário que ocorra uma mudança institucional, que as instituições reconheçam o papel protagonista do setor terciário e se voltem a ele, apoiando-o, para que o crescimento seja ainda maior, e não constrangendo seu desenvolvimento. O que não significa que o cacau tenha que ser relegado. Não! Precisamos resolver a crise do cacau por fatores diversos e óbvios (econômicos, ambientais...). Mas é preciso reconhecer que a crise continua somente para o cacau. Que a economia em termos de produto agregado não está mais em crise. Que o crescimento econômico é fruto de outras atividades econômicas. E que tais atividades precisam de apoio institucional. O cacau deve continuar compondo a pauta das instituições cacaueiras mas não dominando, como acontece agora, desconsiderando este setor terciário pujante. O livro demonstra este conflito institucional. É muito claro nos exemplos dados. Há casos surpreendentes! Aliás, a maioria deles, senão todos! Então as instituições devem fazer seu papel. Neste sentido, tenho aprovado na UESC um projeto de extensão que prevê a realização de seminários em organizações regionais. Realizarei palestra sobre o conteúdo do livro, apresentando seus dados, conclusões, contribuindo para esta tão necessária mudança institucional.
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