Entrevista

Entrevista com o PRODUTOR E PESQUISADOR HILTON LOPES LEAL FILHO

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HILTON LOPES LEAL FILHO

Hilton é também cacauicultor na sua cidade natal, ficando dividido entre a Bahia e o Pará no cumprimento da sua missão de produzir o fruto de ouro

Publicado em 11/05/2020
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Por Bruno Simões de Oliveira dos Santos

"Natural de Ibirataia-BA, 70 anos, filho de tradicional cacauicultor, é Técnico Agrícola formado pela EMARC em 1968, convocado para trabalhar na Amazônia foi um desafio ter de exercer suas atividades numa Região ainda desconhecida pela modernização tecnológica, onde foi chefiar a Estação Experimental de Manaus, graduou-se em Administração de Empresas, transferiu-se para Belém-PA, onde exerceu várias funções no Departamento de Pesquisa da CEPLAC no Pará como Assessor de Cooperativismo e Extensão Rural. Trabalhou 20 anos na CEPLAC se exonerando para se dedicar a plantação de cacau na Transamazônica, onde se tornou grande produtor de cacau no município de Altamira-PA. O seu DNA ligado ao cacau o fez se tornar uma referencia como produtor tecnológico, obtendo alta produtividade nas suas áreas de cacau, além de grande estudioso do mercado."

1. Considerações iniciais Todo ano são distribuídos do campo de produção da Ceplac entre 10 a 12 milhões de sementes hibridas de cacau. Além da Região Transamazônica (BR-230), centrei ter em Altamira, onde a Cacauicultura se expande no sul do Pará, Tucumã e São Felix do Xingu muitos plantios de clones com presença de viveiristas também é realidade no Pará. Estima-se a existência de pelo menos 700 mil hectares férteis roxas estruturadas e podozolicas e ainda tem as de medias produtividade. A Bahia sofreu e sofre duramente a debacle da VB, concomitantemente a mudança do padrão climático, a descapitalização do produtor expressa o retardo da situação. Porém, o cacau é muito forte, verga mais não quebra. Estamos assistindo a recuperação em tempo real: “a nova Cacauicultura”, os superclones, a fertirrigação, cacau 500@ha, cacau bean to bar, novos paradigmas do cultivo. Tem novos horizontes, será uma retomada árdua e gradual. Pessoalmente, crê que os 2 biomas são viáveis. Têm fazendas na Transamazônica Km 55 entre Altamira e Medicilândia no Pará e por herança nas 3 barras em Ibirataia-Ba. 2 - A CEPLAC foi a responsável pela expansão do cacau na Amazonia? O Procacau – Programa de Expansão do Cacau no Brasil, inclusive na Amazônia no chamado “retorno do cacau as suas origens” e o slogan governamental ‘Terras sem homens para homens sem-terra’ propiciou a estrutura necessária ao plantio do cacau no norte do país. Recursos abundantes; INCRA, Polo Amazônia e a CEPLAC como órgãos competentes foram agentes ativos no impulso do cacau na Amazônia. Material genético (sementes híbridas) resistentes a VB; clima favorável, terras férteis, suporte de pesquisa e extensão rural e financiamento bancários a juros subsidiados, tipo FND, etc, deram ensejo a tomada de decisão e a certeza do êxito na cacauicultura no Pará. 3 - Quais as diferenças entre produzir cacau no Para e na Bahia ? No Pará base 2019, 191 mil hectares de área plantada, sendo 146 mil hectares em produção. A produção estimada é de 141 mil toneladas (produtividade média de 960 kg/ha). São 26 mil produtores envolvidos na atividade cacau gerando 319 mil empregos diretos e indiretos. A taxa de crescimento anual da produção é de 7%. Tudo isso, foi consequência do espírito empreendedor do plantador de cacau na Amazônia, especialmente no Pará onde encontrou homens mais resignados a explorarem a floresta de forma técnica semeando um cultivo mais conservador, porque lá como na Bahia o cacau se comporta bem sob a sombra da floresta. Talvez a maior diferença do Pará da Bahia esteja no perfil do produtor, lá o cacauicultor está vinculado a propriedade, tem espírito empreendedor, buscando produzir mais por área, do que aumentar a produção por extensão de área, como aconteceu na Bahia, quando o coronel do cacau se pontificou adquirindo mais e mais terras para plantar, sem a preocupação com a qualidade da terra e da semente que plantava. 4. O que será da Cacauicultura em 2020? Fatores variados, como clima, mercados e o fato novo o Covid-19 e seus reflexos na cadeia internacional do cacau, por exemplo, países africanos como Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões produzem 70% do cacau mundial. Como vão ficar após a pandemia é uma incerteza que se descortina, pois o que vai acontecer com a produção desses países, bem como com a demanda por chocolate dos países desenvolvidos, notadamente os europeus, guiarão o comportamento do mercado mundial, o fato é que estamos diante de um cenário duvidoso ou incerto. No Pará está despontando excelente safra iniciada na 2a quinzena de abril. Na Bahia, o temporão está abaixo das expectativas, notadamente na regia de Ibirataia, onde possuo roças que indicam baixa produção para o primeiro semestre, observando que o fator clima tem sido favorável, com chuvas em todo o período de floração da lavoura. 5. A legislação ambiental ajuda a implantação do cultivo de cacau? No Pará a maioria das roças está embutida no SAF (Sistema Agroflorestal) compatível com o Código Florestal. Na Amazônia em tese só se pode explorar 20% da área da unidade produtiva. A Bahia 80% estão na legislação do CFB lei máxima ambiental. Também tem o sistema Cabruca, cujo manejo tem limitações impostas pela legislação estadual. De qualquer forma não se pode perder o norte, pois é economicamente viável socialmente justo e ambientalmente sustentável. 6. A política econômica brasileira, apoia ou limita a vida dos cacauicultores? A Política Econômica sempre preocupa, a política cambial com o real desvalorizado sempre ajuda nos preços internos, aumentando o faturamento dos produtores, juros baixos facilitam a tomada de empréstimos para investimento na propriedade. No caso baiano, o produtor se encontra endividado por causa da VB, fato que tem dificultado a melhoria das propriedades, principalmente na renovação de seus cultivos, que demanda vultosa massa de valores. O atual governo ainda não indicou alguma preocupação em incentivar a política nacional de produção de cacau, apesar de considerar o cultivo como uma lavoura nacional. O que se sabe é que retirou da Ceplac o serviço de Extensão, onde se deslumbra que terão os governos dos Estados produtores terem de absorver a responsabilidade de assistência técnica, de onde não se descortina certezas. Por outro lado, o acontecimento da Covid-19 deve também modificar a política econômica liberal do Ministro Guedes, alterando o cenário da economia nacional. O que é possível neste ano não podemos prever, tudo é incerto, ainda mais para o cacau que foi abandonado pelo governo. 7. Como analisa o comportamento do mercado de cacau? O mercado de cacau gira em torno de 4 milhões de toneladas, sendo 98% de cacau buck ou commodity. A África Ocidental é o termômetro do mercado internacional do cacau, é lá que reflete as cotações das Bolsas de Nova York e Londres. Na América do Sul tem o Equador como o maior produtor. Na Ásia a Indonésia demonstrando que o cultivo é explorado em países essencialmente produtores de matéria-prima, que o vende no estado bruto, Por outro lado, o demandador são os países ricos, que praticam o oligopsônio, pois são apenas duas Bolsas de Mercadorias que adquirem a maior parte da produção mundial, estabelecendo preços sempre no interesse do comprador. O Brasil produz entre 180 a 200 mil toneladas, todo absorvido pelo mercado interno, tendo ainda de importar parte significativa para nivelar o ponto de equilíbrio do consumo nacional. A Ásia começa a se tornar importante mercado consumidor, com destaque para a China que em 2019 adquiriu 207 mil toneladas métricas de consumo, maior que toda a produção brasileira. A Índia, Coreia do Sul, Singapura e Japão começam a aumentar gradativamente a procura por cacau e chocolate. O mercado potencial consumidor de chocolates varia entre 800 milhões a 1 bilhão de pessoas, acredita-se que não faltará demanda para o cacau, significando mercado altamente elástico, encorajando as Regiões produtoras em melhor especializarem-se na produção de cacau. 8. Considerações finais A moníliase (moniliophthora morari), doença chamada de monilia é espectro preocupante sobre a Cacauicultura brasileira, principalmente na Amazônia e na Bahia/ES, principais regiões produtoras. Ela está próxima, pois na Bolívia já está em fazendas a 30 km da fronteira do Brasil. Há de se ficar de olhos abertos, pois na crendice do produtor só nos resta ORAR e VIGIAR. O cacau é a commodity singular, matéria prima do alimento dos deuses, vicia, impregna os sentidos e até a alma. Sempre existirá o consumo de chocolates e a presença será constante por esse alimento nobre. É gostoso e faz bem a saúde.

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